Em 2006, a Itália vivia o apogeu de sua história futebolística recente. A imagem icônica de Fabio Cannavaro erguendo a taça da Copa do Mundo na Alemanha não apenas selava o tetracampeonato mundial, mas também coroava o zagueiro como o melhor jogador do planeta, conquistando os cobiçados prêmios da Fifa e a Bola de Ouro da revista France Football. Após uma vitória épica sobre a França na decisão por pênaltis, a Azzurra era sinônimo de excelência, resiliência e talento. Mal sabiam os tifosi que aquele triunfo seria o ponto de inflexão para uma década e meia de incertezas e uma crise profunda que agora ameaça privar a seleção de sua terceira Copa do Mundo consecutiva, um cenário impensável para uma das maiores potências do futebol mundial.
O Voo Alto de 2006: O Ápice Inesperado de Uma Geração
A conquista de 2006 foi um feito notável, que transcendeu as expectativas da própria nação, marcada por um escândalo de manipulação de resultados (Calciopoli) que abalava o futebol doméstico. A equipe, sob o comando de Marcello Lippi, demonstrou uma solidez defensiva lendária, aliada a momentos de brilhantismo individual e coletivo. A vitória sobre a França, carregada de drama e rivalidade, solidificou o status daquela seleção como uma das mais memoráveis. Cannavaro, capitão e líder, personificava o espírito guerreiro e a técnica apurada que levaram a Itália ao topo do mundo, parecendo consolidar uma era de domínio.
A Queda Repentina: O Início da Crise Pós-Campeonato
Contrariando a expectativa de que a glória de 2006 impulsionaria um novo ciclo virtuoso, o que se seguiu foi um declínio acentuado. Nas Copas do Mundo de 2010 e 2014, a Itália, campeã e vice-campeã europeia em 2012, respectivamente, não conseguiu sequer avançar da fase de grupos, sendo eliminada em ambas as edições. Esse período marcou a dificuldade em renovar o elenco envelhecido, a ausência de grandes talentos emergentes para substituir ícones como Totti, Pirlo e Buffon, e uma notável estagnação tática que já sinalizava os problemas estruturais que viriam a se aprofundar no futebol italiano.
As Feridas Abertas: As Ausências de 2018 e 2022
O ápice da crise se manifestou de forma dolorosa nas eliminatórias para as Copas do Mundo de 2018 e 2022. Em 2017, a Itália foi surpreendentemente eliminada pela Suécia na repescagem, marcando a primeira vez em 60 anos que a seleção ficava de fora de um Mundial, chocando o mundo do futebol e levando lendas como Gianluigi Buffon às lágrimas. Quatro anos depois, após um breve mas glorioso renascimento com a conquista da Eurocopa 2020 sob o comando de Roberto Mancini, a Azzurra tropeçou novamente na repescagem, perdendo para a modesta Macedônia do Norte e selando sua ausência da Copa do Catar 2022. Essas eliminações consecutivas não foram meros acidentes, mas sim a manifestação inequívoca de profundas disfunções no sistema de desenvolvimento de jogadores e na gestão do futebol nacional.
Cenário Atual: Desafios e o Risco de Uma Terceira Exclusão
Hoje, o futebol italiano se vê novamente em um momento crítico, com a sombra de uma terceira ausência consecutiva em Mundiais pairando sobre a seleção. A equipe, embora ainda possua talentos individuais e um legado respeitável, tem enfrentado dificuldades em manter uma consistência de alto nível e em se adaptar às demandas do futebol moderno. Questões como a hegemonia de jogadores estrangeiros na Serie A, que limita o espaço para jovens italianos, e a instabilidade no comando técnico e tático têm contribuído para a incerteza. A pressão sobre a Federação Italiana de Futebol (FIGC) é imensa para implementar reformas que possam revitalizar o esporte desde as categorias de base até a elite.
O Legado em Xeque: Implicações de Uma Nova Ausência
Perder a terceira Copa do Mundo consecutiva não seria apenas um revés esportivo; representaria um golpe devastador para o prestígio, a moral e a economia do futebol italiano. As implicações se estenderiam desde a perda de receitas significativas com patrocínios e direitos de transmissão, até um impacto profundo na motivação e no sonho de uma nova geração de jovens jogadores. A ausência de um palco global por tanto tempo arrisca alienar fãs, diminuir o interesse pelo futebol nacional e desvalorizar a marca Azzurra, colocando em xeque o legado de uma nação tetracampeã mundial.
A Itália vive um paradoxo doloroso: de campeã mundial em 2006 a lutar desesperadamente para evitar um declínio sem precedentes. A memória da glória de Cannavaro contrasta dramaticamente com a realidade atual de uma seleção que caminha sobre o fio da navalha. O momento exige não apenas reações imediatas nos gramados, mas uma reengenharia profunda e corajosa em todas as esferas do futebol italiano para que a Azzurra possa reencontrar seu caminho de volta ao topo e evitar que o brilho do passado seja ofuscado por uma era de ausências.
Fonte: https://redir.folha.com.br


